Jardim ou Parque? A Ciência explica por que espaços verdes privativos e públicos não são a mesma coisa

Você já se pegou sonhando com uma casa que tenha um quintal só seu? Ou, quem sabe, valoriza mais morar perto de uma praça arborizada onde pode caminhar no fim de tarde? Essa preferência não é apenas um capricho estético; é um reflexo profundo de como nos relacionamos com o ambiente ao nosso redor.

Nos últimos anos, o planejamento urbano tem focado no conceito de “cidades compactas”. A ideia é aproximar moradia, trabalho e lazer para reduzir deslocamentos e emissões de CO2. No entanto, essa tendência esbarra em um desejo quase universal: a busca por espaço e contato direto com o verde. Um estudo fascinante realizado na Holanda pelos pesquisadores Henny Coolen e Janine Meesters mergulhou nessa questão para entender se os parques públicos podem realmente substituir o nosso querido jardim privativo.

O Jardim Privativo: Uma “Sala de Estar” ao Ar Livre

Para a maioria das pessoas (cerca de 80% dos participantes da pesquisa), o jardim não é apenas um pedaço de terra com plantas; é um componente indispensável da moradia. O estudo revela que o jardim funciona como uma extensão da casa, uma espécie de “sala ao ar livre”.

Jardim com árvores

Fonte: Casa Vogue | Globo

Mas o que torna o jardim tão especial? A palavra-chave aqui é lazer casual. No nosso próprio quintal, temos a liberdade de fazer o que quisermos, longe dos olhares alheios. Os pesquisadores descobriram que os principais motivos para alguém querer um jardim são:

Estar ao ar livre: Citado por metade dos entrevistados como a principal função.

Liberdade e Privacidade: O jardim é um refúgio onde se pode ter controle total sobre o espaço.

Prazer de Viver: A combinação de estar fora de casa com a sensação de liberdade gera um impacto direto na satisfação com a vida.

Para famílias com crianças, o jardim é visto como um local seguro para brincar, embora, curiosamente, essa função de “playground” tenha sido menos mencionada do que o simples desejo de “estar lá fora”.

Parques Públicos: O Coração da Vida no Bairro

Se o jardim é o nosso refúgio particular, o que representam os parques e praças? O estudo mostra que os espaços verdes públicos desempenham um papel totalmente diferente, focado na habitabilidade e na experiência da natureza.

Parque urbano

Fonte: Prefeitura de Curitiba

Enquanto o jardim é sobre “mim” e minha “família”, o parque é sobre o “nós”. Mais de dois terços das pessoas preferem ter vários pequenos espaços verdes espalhados pelo bairro do que um único parque gigante e distante. Isso acontece porque esses pequenos pontos verdes tornam o ambiente residencial mais agradável e convidativo para o uso diário.

As principais funções atribuídas aos espaços públicos são:

1. Conexão com a Natureza: Ao contrário do jardim, onde o foco costuma ser o lazer, nos parques as pessoas buscam sentir a natureza de forma mais pura.

2. Qualidade de Vida no Bairro: O verde público aumenta a sensação de que o bairro é um bom lugar para se viver.

3. Espaço para Caminhadas: O convite para sair de casa e se exercitar é um dos grandes diferenciais desses locais.

Eles podem ser substituídos? A resposta da ciência

A grande questão para arquitetos e governantes é: se construirmos prédios com ótimos parques ao redor, as pessoas abrirão mão do jardim privativo? Segundo o estudo, a resposta curta é não.

Embora ambos envolvam plantas e ar livre, eles atendem a necessidades psicológicas diferentes. O jardim oferece privacidade, controle e uma extensão do lar; o parque oferece amplitude, convivência social e uma experiência de natureza que o quintal nem sempre consegue proporcionar.

Os pesquisadores argumentam que tratar um como substituto do outro é um erro de planejamento. Na verdade, as pessoas querem as duas coisas: um espaço seu para relaxar de pijama e um espaço público para sentir que pertencem a uma comunidade e à natureza.

Curiosidades e Pontos-Chave do Estudo

Jardim é inegociável: Muitas pessoas afirmam que não aceitariam mudar para uma casa sem jardim, tratando essa característica como uma preferência “não compensatória”.

A “Sala de Estar” Externa: Muitas das funções que atribuímos à nossa sala de estar — como relaxar, ter um hobby ou curtir um momento de paz — são exatamente as mesmas que atribuímos ao jardim.

Natureza Pública vs. Lazer Privado: A experiência profunda com a natureza é mais associada aos parques, enquanto o jardim é mais associado ao lazer e à atividade prática.

Diferenças de Renda: Pessoas com rendas mais altas tendem a valorizar ainda mais a privacidade do jardim, enquanto o uso dos parques para “habitabilidade” é valorizado por todas as faixas.

Planejando cidades para pessoas reais

O conflito entre a necessidade de cidades mais densas (prédios e apartamentos) e o desejo por casas com jardins é um dos maiores desafios do nosso século. A ciência urbana nos mostra que ignorar a preferência pelo jardim pode levar a um êxodo das famílias para os subúrbios, o que acaba gerando mais trânsito e poluição — exatamente o que a “cidade compacta” tenta evitar.

A solução parece estar em um planejamento que reconheça essas qualidades interconectadas. Precisamos de cidades que ofereçam opções: desde apartamentos bem localizados com acesso a parques vibrantes, até modelos de moradia que garantam pequenos espaços privativos ao ar livre, mesmo em áreas densas.

Afinal, seja cuidando de um canteiro de flores no quintal ou caminhando sob as árvores de uma praça, o contato com o verde é fundamental para a nossa humanidade.

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Gostou de saber como a ciência urbana enxerga nossa relação com o verde? Compartilhe este post com aquele amigo que está sonhando com a casa nova ou deixe um comentário: você prefere um jardim privativo ou um parque impecável pertinho de casa?

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