A pandemia de COVID-19 mudou a forma como interagimos com as nossas cidades. Quando o mundo parou e as opções de lazer em locais fechados desapareceram, os espaços verdes urbanos tornaram-se refúgios essenciais para a saúde mental e física. No entanto, um estudo recente conduzido por Carolina Mayen Huerta revela que o acesso a esses “pulmões urbanos” está longe de ser igual para todos, especialmente na densa Cidade do México.
Por que os parques são ferramentas de saúde pública?
Os espaços verdes urbanos (EVU) não servem apenas para embelezar a paisagem. Eles oferecem o que os cientistas chamam de serviços ecossistêmicos: ajudam a regular a temperatura, filtram o ar e proporcionam locais seguros para exercícios e relaxamento. Durante o isolamento social, o contato com a natureza foi fundamental para mitigar o estresse, a ansiedade e a depressão.
No entanto, em metrópoles como a Cidade do México, a distribuição desses espaços é marcada por uma profunda desigualdade histórica. O estudo aponta que, para as populações mais marginalizadas, a falta de um parque por perto não é apenas uma questão de lazer, mas uma forma de injustiça ambiental que amplia os riscos à saúde em tempos de crise.
O desafio de medir o acesso real
Muitas vezes, os governos afirmam que uma cidade tem “muitas áreas verdes” baseando-se apenas em estatísticas gerais por município. O problema é que essas áreas podem estar concentradas em poucos lugares ou, pior, serem apenas áreas pavimentadas sem nenhuma árvore que o governo classifica erroneamente como parques.
Para obter um cenário real, a pesquisa utilizou análise de rede, que calcula a distância real que uma pessoa percorre caminhando pelas ruas para chegar a um parque, em vez de uma linha reta imaginária que ignora muros e barreiras. O estudo também foi rigoroso: só foram considerados espaços com vegetação real, excluindo áreas cimentadas ou locais privados.

A regra dos 300 metros
A Organização Mundial da Saúde e diversos especialistas recomendam que todo cidadão deve ter acesso a um espaço verde a, no máximo, 300 metros de casa. Na Cidade do México, os resultados são alarmantes: 72% dos bairros não cumprem esse requisito básico.
Nem todo parque é igual: os quatro níveis funcionais
A ciência urbana divide os parques pelo seu tamanho e pelo que oferecem. O estudo utilizou quatro categorias para entender o que realmente falta na cidade:
1. Parques Infantis: Pequenas áreas para crianças (raio de 400m de alcance).
2. Parques de Bairro: Áreas maiores para atividades cotidianas (raio de 800m).
3. Parques de Distrito: Espaços amplos para recreação mais diversa (raio de 2km).
4. Parques de Cidade: Grandes reservas que ajudam até na regulação do clima (raio de 5km).
A maior carência está nos pequenos parques. Apenas cerca de 29% dos bairros têm um parque infantil acessível a pé. Isso significa que famílias em bairros mais pobres têm poucas opções para levar as crianças ao ar livre sem depender de transporte público, o que foi um grande problema durante os bloqueios da pandemia.

Radiografia da desigualdade: os bairros esquecidos
A pesquisa cruzou os dados de acesso com o índice de pobreza dos bairros. O resultado confirmou um padrão de segregação: enquanto áreas de classe média e alta no noroeste da cidade possuem bons índices de acesso, as periferias ao sul e ao leste vivem em um “deserto verde”.
Municípios como Milpa Alta não têm nenhum bairro com acesso a espaços verdes num raio de 300 metros. Já em áreas como Xochimilco e Iztapalapa, a situação é crítica porque muitos moradores vivem em casas superlotadas e não têm um parque próximo para onde escapar e aliviar o estresse mental. Esses foram classificados como bairros de alta prioridade para novos investimentos.
Pontos-chave sobre os espaços verdes na Cidade do México
Ilusão estatística: Muitas áreas “verdes” oficiais são, na verdade, praças cimentadas sem vegetação que não oferecem os mesmos benefícios à saúde.
Justiça Ambiental: Bairros com maior taxa de pobreza têm significativamente menos acesso a parques do que bairros ricos.
Saúde Mental: O estudo reforça que o uso frequente de parques está diretamente ligado ao bem-estar subjetivo durante crises de saúde.
Dificuldade de mobilidade: Durante a pandemia, a distância tornou-se a maior barreira, já que as pessoas evitaram o transporte público por medo de contágio.
Conclusão: por cidades mais verdes e justas
O estudo de Carolina Mayen Huerta deixa claro que os espaços verdes urbanos não são um luxo, mas uma necessidade básica de infraestrutura. Para que cidades como a Cidade do México se tornem resilientes a futuras crises, o planejamento urbano precisa olhar para além do asfalto.
A criação de novos parques, especialmente em áreas densamente povoadas e pobres, deve ser acompanhada por melhorias na iluminação, segurança e infraestrutura das ruas. Só assim o benefício da natureza chegará a quem mais precisa. Afinal, uma cidade só é verdadeiramente sustentável quando a saúde e o bem-estar são acessíveis a todos os seus habitantes, independentemente do código postal.


