Você já parou para pensar por que algumas ruas são muito mais frescas do que outras, mesmo no calor intenso de Mato Grosso? A resposta está sobre nossas cabeças: na arborização urbana. Mais do que apenas “enfeitar” a cidade, as árvores desempenham um papel vital na redução da temperatura, na melhoria da qualidade do ar e até no nosso bem-estar psicológico.
Recentemente, um estudo científico detalhado investigou a situação das árvores no bairro Jardim Europa, em Rondonópolis. Os resultados trazem lições valiosas sobre como estamos cuidando (ou deixando de cuidar) do nosso patrimônio verde e o que precisa mudar para termos cidades mais sustentáveis.
O Desafio da Diversidade: A “Ditadura” do Oiti
Um dos pontos que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a falta de variedade. Imagine se em uma floresta só existisse um tipo de animal; qualquer doença nova poderia acabar com todos de uma vez. Nas cidades, o raciocínio é o mesmo.
No bairro Jardim Europa, mais de 54% de todas as árvores são de uma única espécie: o oiti (Moquilea tomentosa). Embora o oiti seja amado por sua sombra densa e resistência ao calor, depender tanto de uma só planta é arriscado para a saúde da floresta urbana. Além disso, a maioria das espécies encontradas (74,14%) são “estrangeiras” ou exóticas, enquanto as belezas do nosso Cerrado representam apenas cerca de um quarto do total.

Árvores de Moquilea tomentosa em canteiro central.
Valorizar árvores nativas, como os ipês e o pequi, ajuda a preservar a fauna local e garante que as plantas estejam mais adaptadas ao solo e clima da região.
Árvores vs. Infraestrutura: Um Conflito que Pode ser Evitado
Quem nunca teve que desviar de um galho baixo ou viu uma calçada toda quebrada por causa de raízes? No bairro Jardim Europa em Rondonópolis, o estudo mostrou que 95% das árvores têm bifurcações abaixo de 2,10 metros. Isso significa que os galhos começam muito cedo, criando barreiras físicas para quem caminha, especialmente para pessoas com mobilidade reduzida ou deficiência visual.
Outro grande problema apontado foi o conflito com a rede elétrica. Cerca de 20% das árvores já apresentam conflitos diretos com a fiação. Isso acontece principalmente porque árvores de grande porte, como o próprio oiti, são plantadas em locais onde não há espaço suficiente para elas crescerem sem tocar nos fios. O resultado? Podas drásticas que deixam as árvores “aleijadas”, feias e mais suscetíveis a doenças.
A Importância do Planejamento e do Acompanhamento Técnico
O estudo concluiu que a maior parte dos problemas encontrados — desde calçadas rachadas até árvores doentes — é fruto da falta de um Plano de Arborização Urbana em Rondonópolis. Sem um manual de orientações, o plantio acaba sendo feito de forma improvisada pelos próprios moradores, muitas vezes com espécies inadequadas para calçadas estreitas.
Atualmente, o município possui leis que tratam do tema, mas ainda falta o documento principal que dite as regras técnicas para o manejo correto dessas plantas pela gestão pública. Ter profissionais qualificados (biólogos, engenheiros florestais e agrônomos) acompanhando desde o plantio até a poda é a única forma de garantir que a árvore seja um benefício, e não um problema futuro.
Curiosidades e Pontos-Chave do Estudo
• Oiti Dominante: De cada 10 árvores no bairro, mais de 5 são oitis.
• Saúde das Árvores: Apesar dos problemas de manejo, 65% das plantas estão em bom estado de saúde.
• Falta de Nativas: Menos de 30% das espécies são originais do nosso Cerrado.
• Barreira nas Calçadas: Quase todas as árvores (95%) têm galhos que dificultam a passagem de pedestres por serem muito baixos.
• Necessidade de Poda: Mais de 60% dos indivíduos precisam de algum tipo de poda para se ajustar ao espaço urbano.
Conclusão: O Futuro Verde de Rondonópolis
As árvores são as “pulmões” das nossas ruas, mas elas precisam de espaço e cuidado técnico para sobreviver em harmonia com o asfalto e os cabos de energia. O diagnóstico realizado no bairro Jardim Europa é um alerta para a necessidade urgente de políticas públicas mais robustas e de uma conscientização maior sobre o que plantamos em frente às nossas casas.
Uma cidade bem arborizada não é apenas uma cidade mais bonita; é uma cidade mais justa, acessível e preparada para os desafios climáticos do futuro.
Gostou de saber mais sobre a ciência por trás das nossas calçadas? Compartilhe este post e saiba mais sobre como a ciência urbana transforma nossas cidades!
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Este texto foi baseado em dados do artigo científico “Diagnóstico da arborização urbana no bairro Jardim Europa em Rondonópolis, sudeste de Mato Grosso, Brasil”, de autoria de Jocy Kelly Santana de Souza e Henrique Augusto Mews (2024).


